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10 Julho 2026

Nova perspetiva sobre compostos com efeitos na química do cérebro

Nova perspetiva sobre compostos com efeitos na química do cérebro

Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro (UA) publicou um artigo de revisão científica na revista "Medicinal Research Reviews" que explora uma dimensão pouco conhecida dos fosfonatos, uma família de compostos químicos com aplicações desde a agricultura à saúde humana.

Publicado numa revista científica de elevado impacto, o artigo explica como os fosfonatos intervêm na bioquímica do cérebro, começando pelas suas origens mais ‘negras’ como armas neurotóxicas e passando para a sua contribuição para a terapêutica de doenças como o Alzheimer e a lesão cerebral isquémica.

O trabalho, intitulado Phosphonates as Modulators of Brain Chemistry, é assinado por investigadores com ligação ao Departamento de Química da UA e a duas unidades de investigação. Susana Santos Braga, Nádia E. Santos e Maria Almeida-Santos são membros do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV-REQUIMTE) e Flávio F. Figueira e Filipe A. Almeida Paz são membros do CICECO-Instituto de Materiais de Aveiro. Reunindo a evidência científica produzida nos últimos anos, mostra como os fosfonatos podem desempenhar um papel muito mais abrangente em medicina do que aquele que tradicionalmente lhes tem sido atribuído, desde medicamentos para a osteoporose como o Alendronato (Fosamax) a antibiticos como a fosfomicina, antivirais e antitumorais.

A maioria dos fosfonatos, nomeadamente os de uso medicinal, tem moléculas demasiado grande para atravessar a membrana que protege o cérebro (barreira hemato-encefálica).  Alguns fosfonatos, porém, são capazes de o fazer, tendo ganho fama pelas piores razões: a potente atividade tóxica no tecido cerebral. Mas serão todos os fosfonatos maus para o cérebro? Poderão passar de vilões a heróis com retoques subtis na sua estrutura? É precisamente essa versatilidade que motivou os investigadores da UA a olhar para estes compostos sob uma nova perspectiva, a do desenho quimico racional em neurociência.

A revisão descreve o conhecimento atual sobre a interação dos fosfonatos com processos bioquímicos do sistema nervoso central e analisa o seu potencial em áreas como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson, e a recuperação de um acidente isquémico. Mais do que apresentar uma nova terapia, o artigo identifica oportunidades de investigação, discute o conhecimento existente sobre estrutura-atividade e aponta os principais desafios científicos que terão de ser ultrapassados para que estas moléculas possam, no futuro, encontrar aplicações em neurologia.

O artigo representa mais um passo numa linha de investigação que a equipa tem vindo a desenvolver ao longo da última década. Liderada por Susana Santos Braga e Filipe A. Almeida Paz, esta equipa tem contribuído para aprofundar o conhecimento sobre a química dos fosfonatos e dos bisfosfonatos, a sua síntese e incorporação em materiais tridimensionais como os MOFs (Metal-Organic Frameworks) con novas aplicações biomédicas. Os seus trabalhos são hoje referências internacionais na área e têm ajudado a identificar novas possibilidades para uma família de compostos cuja versatilidade continua a surpreender.

A mensagem central é clara: apesar de serem moléculas estudadas há décadas, os fosfonatos podem ainda revelar propriedades inesperadas e abrir novas linhas de investigação em doenças para as quais continuam a existir poucas opções terapêuticas.

Mais informações: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/med.70070

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