Um novo Comment publicado na Nature Materials, da autoria de Paula Maria Vilarinho, do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro e do Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica da Universidade de Aveiro, e de Sean Kelly, da Nanotechnology Industries Association, aborda um dos principais desafios que se colocam aos materiais avançados na Europa: como transformar descobertas científicas em tecnologias e produtos industriais.
Publicado online a 28 de agosto de 2026, o artigo, intitulado From invention to industrialization of materials in Europe, defende que a Europa mantém uma posição de destaque na investigação fundamental em materiais, mas continua a enfrentar dificuldades estruturais na ampliação das tecnologias e na sua chegada ao mercado.
Os autores identificam uma lacuna persistente entre a investigação em laboratório e a produção industrial. As tecnologias de materiais exigem frequentemente longos períodos de desenvolvimento, infraestruturas especializadas e investimentos significativos, tornando particularmente desafiante a transição dos protótipos laboratoriais para a produção industrial. O artigo identifica esta etapa como o “vale da morte”, uma fase em que o financiamento, as infraestruturas, a regulamentação, as competências e as capacidades industriais podem limitar a progressão de tecnologias com potencial.
O Comment baseia-se nas discussões realizadas durante o Future of Advanced Materials in Europe (FAME) Workshop, organizado na Universidade de Aveiro em novembro de 2025, que reuniu representantes da indústria, da investigação, do investimento, da regulamentação e da definição de políticas públicas. O workshop evidenciou a necessidade de reforçar a ligação entre a excelência científica e a aplicação industrial.
Para os autores, responder a este desafio exige uma abordagem europeia coordenada. Entre as prioridades identificadas estão um maior acesso a infraestruturas de demonstração e de aumento de escala (scale-up), novos mecanismos para mobilizar investimento privado, um quadro regulamentar mais integrado, relações mais estreitas entre os responsáveis pelo desenvolvimento de materiais e os utilizadores industriais finais, e o investimento em competências especializadas para a industrialização de materiais.
“A Europa dispõe de capacidade científica, credibilidade regulamentar e uma base industrial para assumir uma posição de liderança. No entanto, tem faltado ao continente um quadro coerente que permita transformar estes recursos em produtos manufaturados”, acrescenta Paula Vilarinho.
O artigo salienta também que os materiais avançados devem ser desenvolvidos tendo em conta as suas aplicações e o contexto industrial. Em vez de se centrarem exclusivamente nas propriedades de um novo material, os autores defendem ecossistemas orientados para a aplicação, nos quais os responsáveis pelo desenvolvimento de materiais, os utilizadores finais e os parceiros industriais trabalham em conjunto para validar as tecnologias em condições de fabrico próximas das reais.
A publicação reforça ainda a relevância do recentemente criado CICECO Materials Observatory, uma iniciativa destinada a ligar a experiência científica na área dos materiais a desafios estratégicos que envolvem a indústria, os decisores políticos e a sociedade. O Observatório disponibiliza análises baseadas em evidência sobre questões científicas, tecnológicas e societais relacionadas com os materiais e traduz conhecimento científico em conteúdos como documentos de posição, policy briefs e relatórios de especialistas.
“O Materials Observatory foi criado para contribuir com evidência científica para o debate sobre o papel estratégico dos materiais na sociedade, na indústria e nas políticas públicas. A publicação na Nature Materials constitui uma oportunidade para alargar este diálogo e destacar a importância de ligar a excelência científica às condições necessárias para a aplicação industrial e para a competitividade tecnológica”, salienta Paula Vilarinho.
O Observatório reúne já contributos sobre o papel estratégico dos materiais avançados em Portugal e na Europa, incluindo uma roadmap da autoria de Paula M. Vilarinho sobre as oportunidades de Portugal no contexto europeu dos materiais avançados, bem como o relatório do FAME Workshop.
A publicação na Nature Materials leva esta discussão a uma audiência internacional e enquadra os desafios identificados no âmbito da iniciativa FAME no debate europeu mais amplo sobre políticas para os materiais avançados e competitividade industrial.
À medida que a Europa prepara o Advanced Materials Act de 2026, Vilarinho e Kelly defendem que o sucesso da política europeia para os materiais deverá ser avaliado não apenas pelo número de publicações científicas ou patentes, mas também pela capacidade da Europa para produzir e implementar materiais avançados de forma segura, sustentável e à escala industrial.
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