O curta Fantasia
A fantasia é o resultado de uma longa viagem pessoal que se cruza com um momento de generosidade coletiva. Reúne música e ciência, imaginação infantil e arte profissional, sonhos individuais e apoio institucional. Mais do que uma curta-metragem ou uma apresentação musical, representa um argumento vivo: que quando a imaginação é levada a sério — e quando as comunidades optam pela colaboração em vez da fragmentação — a arte se torna não só possível, como transformadora.
Produção Cinematográfica e Gravação da Banda Sonora como Ato Coletivo de Construção de Sonhos
Fantasia é uma curta-metragem nascida na interseção entre música, educação, estudos da deficiência e colaboração institucional. Mais do que uma obra cinematográfica, constitui uma experiência cultural e humana: uma exploração de como a imaginação, quando apoiada por estruturas coletivas, pode transcender barreiras físicas, sociais e simbólicas.
O projeto é liderado musicalmente por Damoon Keshmirshekan, estudante de doutoramento do CICECO e do Departamento de Química da Universidade de Aveiro, cuja relação com a música se estende por mais de duas décadas. Embora a sua trajetória académica esteja atualmente ancorada na Biotecnologia e na Engenharia Química, a música é uma paixão, enraizada não apenas na composição, mas na construção narrativa através do som.
Uma Criança, um Compositor e um Sonho Orquestral
Como explica Damoon, Fantasia assinala o seu primeiro projeto composicional em Portugal, centrado explicitamente na história de uma criança. Miguel, uma criança com deficiência, mas, acima de tudo, uma criança que é compositor.
Miguel é “um pequeno compositor com grandes sonhos”, afirma Damoon. A premissa narrativa do filme é deliberadamente simples, mas eficaz. Miguel sonha ouvir a sua própria música interpretada por uma orquestra completa e dirigir ele próprio essa orquestra. O filme visualiza esse sonho não como fantasia desligada da realidade, mas como uma extensão imaginativa da mesma.
Compor Fantasia: Da Intuição à Forma Orquestral
A banda sonora foi inicialmente desenvolvida através de ferramentas digitais de composição, utilizando orquestração MIDI. Esta fase funcionou como um espaço experimental, onde os temas puderam ser testados, reformulados e calibrados do ponto de vista emocional. Apesar da vasta experiência na composição para cinema, esta foi a primeira vez que Damoon orquestrou uma obra destinada a interpretação ao vivo por uma orquestra portuguesa.
A transição do esboço digital para a partitura ao vivo exigiu mediação especializada. Bernardo Lima desempenhou um papel central na tradução da orquestração MIDI para uma partitura executável, garantindo clareza musical, equilíbrio e fidelidade à intenção original. Este processo transformou Fantasia de uma composição pessoal num objeto musical partilhado. Para Damoon, não foi apenas a conclusão de uma banda sonora, mas a concretização de uma aspiração artística antiga: ouvir a sua música interpretada por uma orquestra ao vivo.
Gravação e Filmagens no Teatro Aveirense
A gravação final da banda sonora e as filmagens decorreram no Teatro Aveirense, um espaço cujas qualidades simbólicas e acústicas moldaram o projeto, com o contributo dos músicos da Orquestra das Beiras. Damoon recorda como a entrada no teatro e a convergência de músicos, equipa técnica, educadores e da família de Miguel tornaram tangível a filosofia subjacente ao projeto: a arte como ato coletivo.
A sessão de gravação coincidiu com a conclusão da “parte musical” do projeto, assinalando um momento de alívio e gratidão. A complexidade logística de reunir uma orquestra, assegurar um espaço profissional e alinhar calendários entre instituições tornou a concretização de Fantasia incerta. O que a viabilizou, como sublinha Damoon, não foi apenas a infraestrutura, mas o “espírito colaborativo e de boa vontade” de todos os envolvidos.
Fantasia como Processo, Não Apenas como Produto
Fantasia não é apenas um filme concluído ou uma banda sonora gravada. É a documentação de um processo — no qual a imaginação é tratada como uma forma legítima de conhecimento e a colaboração como metodologia criativa.
Ao colocar uma criança com deficiência no centro de uma narrativa sinfónica, o projeto questiona conceções redutoras de limitação. Ao articular ciência, música, educação e cultura pública, demonstra como instituições académicas e de investigação podem atuar como facilitadoras de sonhos, e não como constrangimentos.
“Fantasia não é um ponto final, mas um início. Abre caminho a projetos futuros ancorados nos mesmos princípios: empatia, rigor artístico e responsabilidade partilhada. E constitui um lembrete discreto, mas eficaz, de que quando as comunidades escolhem escutar — as crianças, a música, umas às outras — a imaginação pode, literalmente, ser orquestrada”, conclui Damoon.
Colaboração Institucional e Apoio Cultural
A produção de Fantasia foi possível graças à colaboração de múltiplas instituições e pessoas. O apoio central incluiu:
- CICECO, cuja missão cultural possibilitou apoio financeiro e institucional;
- DECA e a Orquestra da Universidade de Aveiro, cuja abertura artística foi essencial para a interpretação ao vivo;
- Teatro Aveirense e a Câmara Municipal de Aveiro, cujo apoio logístico e técnico permitiu a realização do filme e da gravação num espaço cultural profissional.
Igualmente centrais foram os contributos humanos: Miguel e a sua família; a professora Júlia; colaboradores como Bernardo e Davis; docentes; e numerosos técnicos, músicos e profissionais cujo trabalho, muitas vezes invisível, foi indispensável:
Realização: Pedro Ferreira e Damoon Keshmirshekan
Produção: CICECO – Universidade de Aveiro
Argumento e Composição: Damoon Keshmirshekan
Investigador: Davys Moreno
Orquestração Musical: Bernardo Ramos Lima
Gravação, Edição e Mistura Musical: Leonel Soares Audiovisual
Técnico de Media: António Veiga, Operador de Som: Isaac Raimundo
Elenco: Miguel Ângelo Teixeira Amador e Vera Lúcia Teixeira Amador
Elenco de Apoio: Orquestra das Beiras
Em colaboração com: Câmara Municipal de Aveiro, Orquestra das Beiras, Teatro Aveirense, Departamento de Comunicação e Arte (DeCA), DEP - Department of Education and Psychology, AVEIRO UNIVERSITY SYMPHONIC ORCHESTRA, Gestor de Divulgação e Comunicação de Ciência, EACMCGA (Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, Aveiro), ESTARREJA CITY COUNCIL, ESTARREJA SCHOOL GROUP, EACMCGA - Artistic School Conservatory of Music Calouste Gulbenkian of Aveiro, CRTIC AVEIRO – Aveiro ICT Resource Centre, MEO FOUNDATION, CIDTFF - Research Centre on Didactics and Technology in the Education of Trainers, DigiMedia - Digital Media and Interaction Research Centre, FCT - Foundation for Science and Technology - FCT Portugal, Research Centre on Didactics and Technology in the Education of Trainers, Department of Education and Psychology and Digital Media and Interaction Research Centre-DigiMedia, Laboratory of Musical Informatics, University of Milan, Italy.
Damoon reconhece abertamente a impossibilidade de nomear todas as pessoas envolvidas, sublinhando a natureza coletiva da concretização. Nas suas palavras, Fantasia existe porque muitas pessoas optaram por colaborar em vez de compartimentar, por apoiar em vez de restringir.











